Ana Clara, Eduarda, Maria Eduarda, Helena e Maria Luísa: amigas inseparáveis desde os 2 anos de idade, elas chegaram a mudar de escola juntas

Escolas têm posturas diferentes em relação à redistribuição das turmas a cada início de ano. De um lado, a defesa é pelo fortalecimento dos laços; de outro, pela socialização

09/03/2010 | 00:11 | Tatiana Duarte - educacao@gazetadopovo.com.br

As amigas Ana Clara Graça e Eduarda de Souza, 7 anos, estudam numa escola que não separa e nem mistura as turmas a cada início de ano letivo. Perfeito para as duas, que têm um vínculo forte de amizade e são quase inseparáveis. Alunas do 3.º ano do ensino fundamental, Ana Clara e Eduarda estudam juntas na mesma turma há cinco anos, mesmo após terem mudado de escola. Um grupo de mais três meninas – Helena Merhy, Maria Luísa Silveira Bittencourt e Maria Eduarda Catani – acompanhou a mesma trajetória da dupla. A manutenção da classe só trouxe benefícios para o aprendizado e socialização das meninas, segundo seus pais e mães.

Mas nem sempre as instituições de ensino mantêm a composição de cada turma de um ano para outro. Em algumas escolas há uma política clara de remanejamento dos grupos. Reclamar que o melhor amigo não está na mesma sala e pedir troca de turma nem sempre adianta. Esse foi o caso do estudante da 4.ª série do ensino fundamental do colégio Positivo Eduardo Florêncio da Silva, 10 anos. De acordo com o pai, o comerciante Marcelo Sivers da Silva, 38 anos, Eduardo, que é um menino tímido, estranhou um pouco a mudança no início das aulas. “Foi algo inesperado, ele não gostou e queria retornar para a turma dele do ano passado. Como esse processo demora um pouco, ele acabou fazendo novas amizades e mudou de ideia”, diz.

O diretor do colégio Positivo em Curitiba, Carlos Dorlass, explica que a redistribuição de turmas é necessária para trabalhar com a socialização e ajudar as crianças na experiência de construir novos grupos. “Queremos prepará-los para a vida. Se for mantido sempre o mesmo grupo, nossos alunos não terão oportunidade de conhecer novas pessoas”, diz. Dorlass ainda ressalta que os amigos que estudaram nas mesmas turmas em anos anteriores podem se encontrar durante os intervalos de aula. “Cada sala fica a uma distância de cinco metros uma da outra. Muitas famílias, em vez de ficar preocupadas com o que seus filhos vão aprender, pensam em quem vai estar do lado”, ressalta.

A medida é bem diferente da adotada no colégio Anjo da Guarda, onde estudam as amigas Ana Clara, Eduarda, Maria Eduarda, Helena e Maria Luísa. Todas estão juntas na mesma classe desde os 2 anos de idade, quando ainda frequentavam a educação infantil numa outra escola. “Resolvemos procurar uma escola maior para nossas filhas e as outras mães acabaram decidindo pela mesma instituição que escolhemos”, diz a advogada Jocelaine Moraes de Souza, 40 anos, mãe de Eduarda. Na opinião de Jocelaine, a manutenção do grupo não impede que as meninas aprendam a se relacionar com outras crianças. Para a arquiteta Ana Carolina Min­­guetti Graça, 38 anos, mãe de Ana Clara, o grupo só foi aumentando com o tempo. “As crianças já têm intimidade com as famílias. E espero que fiquem juntas até o 9.º ano”, comenta. O pai de Maria Eduarda, o médico Gui­­lherme Simas Catani, acha que estudar na mesma turma só reforça os laços de amizade. “Cada ano passa a ser uma continuidade do outro. Como elas já estão juntas há três anos, uma ajuda a outra nos estudos”, afirma.

A união faz a força

Na maior parte das instituições de ensino ouvidas pela reportagem, o grupo é mantido, salvo por transferência de local de estudo, recebimento de novos alunos e reprovação. De cinco colégios particulares e na rede municipal de ensino, apenas três fazem remanejamento das turmas pelo menos em algum momento da vida escolar do estudante.

No colégio Dom Bosco, o foco é manter os alunos em suas turmas de origem desde o maternal até o 2.º ano do ensino médio. A coordenadora da educação infantil e ensino fundamental do Dom Bosco Mercês, Anneliese Alcoba Ruiz, explica que a intenção é facilitar as questões sociais e fortalecer os laços de amizade entre seus estudantes. “A vida moderna faz com que as crianças tenham contatos limitados e o convívio com seus pares ocorre na escola”, diz. Segundo a coordenadora do Dom Bosco, a manutenção das turmas não dificulta a socialização. “Todos os anos recebemos alunos novos, existe a possibilidade de novas relações. O acolhimento é bastante estimulado entre nossos alunos”, afirma.

Nas escolas da rede municipal de ensino de Curitiba, a tendência é manter o grupo, segundo ressalta a diretora do ensino fundamental da Secretaria Mu­­nicipal de Educação de Curitiba, Nara Luz Salamunes. “Nossos alunos geralmente moram perto da escola e essa amizade acaba formando vínculos e fortalecendo o grupo como pequena comunidade”, diz.

A diretora do colégio Novo Ateneu, Vera Julião, ressalta que os jovens tendem a ser tribais e muitas vezes se escondem em turmas para se protegerem. “Mas a homogeneidade e continuidade não existem. Sempre há alguma modificação de um ano para outro. Isso é bom porque a vida é feita de relações”, diz. Mesmo sendo a favor da redistribuição, Vera explica que no Novo Ateneu a mudança entre turmas só ocorre no ensino médio, quando as turmas se misturam e há separação por gênero durante as aulas de Educação Física.

Já no Colégio Sion, a redistribuição ocorre somente na 5.ª série ou 6.º ano do ensino fundamental. De acordo com a coordenadora do ensino fundamental do Sion, Juliana Boff Cruz, há um cuidado para que alguns colegas das turmas anteriores sejam mantidos. “As referências são importantes, pois também é um momento difícil para eles”, afirma.

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