O Brasil aparece no topo da lista de países onde se perde mais tempo tentando acabar com a bagunça em sala. Despreparo dos professores para enfrentá-la e não envolvimento dos pais na rotina escolar dos filhos são algumas das causas principais

Publicado em 21/04/2010 | Vitor Geron, especial para a Gazeta

Conversas fora de hora, mensagens de celular ou ainda os velhos bilhetinhos de papel. Não importa de que maneira a indisciplina ocorre em sala de aula, ela continua sendo um problema para os professores que querem ensinar para estudantes que desejam aprender.

No Brasil, a bagunça alcança um nível preocupante. De acordo com a pesquisa Talis, divulgada ano passado pela Organização para Coope­ração e Desenvolvimento Econô­mico (OCDE) e coordenada, no Brasil, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), os professores brasileiros são os que mais perderam tempo na manutenção da ordem na classe. Em média, desperdiça-se com a bagunça 18% do tempo total de aula. Subtraídos ainda 12% das aulas com questões de organização, – da chegada do professor à distribuição de materiais, passando pela chamada –, sobram apenas 70% do tempo para a aplicação do conteúdo, o menor índice entre as 24 nações pesquisadas.

Trabalhando questões de cidadania, os alunos da Escola Estadual Ângelo Trevisan produzem trabalhos multidisciplinares que são expostos no colégio, atividade que contribuiu para que a instituição ganhasse um prêmio nacional de Gestão Escolar

Quando calculada em relação ao ano letivo, a perda fica ainda mais evidente. O estudo Talis, o mais recente sobre o ambiente de aprendizagem nas escolas, revela que, considerados 200 dias letivos, apenas 140 são utilizados pelos professores para transmitir o conteú­do. “São 60 dias perdidos. É como se fosse dado um verão inteiro de férias para os alunos”, diz o doutor em educação Joe Garcia, coordenador do grupo de pesquisas sobre indisciplina na educação contemporânea no mestrado e doutorado em educação da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP).

Menos qualidade

O nível de bagunça nas salas brasileiras influencia diretamente na qualidade do ensino, como explica Garcia. “Um aluno que faz bagunça cria um ambiente favorável para a desordem dentro da sala de aula e prejudica o desempenho escolar dos colegas, caso o professor não saiba lidar corretamente com essa indisciplina”, diz ele. Uma das soluções para compensar esse tempo perdido na organização do ambiente escolar seria, segundo o professor, aumentar a carga horária das aulas, proposta que vem sendo discutida em diversos países, entre eles os Estados Unidos. Como aqui a discussão ainda não chegou, cabe aos professores tentar conter a bagunça.

Responsabilidade do professor

Especialistas concordam que a bagunça surge, muitas vezes, quando os professores não transmitem o conteúdo de maneira adequada. E que ela torna-se frequente em sala de aula quando o professor não sabe como enfrentá-la a contento.

O professor de pedagogia e psicologia da Unibrasil, Emerson Luiz Peres, acredita que muitas vezes os educadores, ao depararem-se com situações de indisciplina, confundem a noção de autoridade com a de autoritarismo. “Isso porquê muitos deles têm dificuldade em se posicionar frente a um novo modelo de relação social, no qual os alunos têm mais conhecimento do que no passado, exigem qualidade no ensino e conhecem mais os seus direitos. Isso acaba fazendo com que os professores ajam de modo autoritário”, diz.

A preparação deficiente para enfrentar o problema também é apontada como um motivo da dificuldade em se lidar com a indisciplina dos alunos. “É preciso investir muito na formação dos educadores, não só nos conteúdos, mas também nas relações do professor com o aluno, a família, a escola e com os diretores”, diz Peres. Para Garcia, os professores não têm uma formação cultural e acadêmica apropriada para enfrentar a bagunça em sala de aula.

Aulas mais preparadas

Outro aspecto importante para conter as bagunças em sala, destacado pelos professores, diz respeito à melhora na preparação das aulas. A professora de Geografia do ensino médio no Colégio Dom Bosco, Cibele Cruz, acredita ser fundamental que o professor domine o conteúdo e preocupe-se em transmitir a matéria de maneira interessante. Ela também destaca que o papel de observação da turma é importante para os professores. “Se eu tenho um aluno hiperativo, eu devo ter consciência de que preciso elaborar outras atividades para ele, antes que esta característica individual prejudique a ordem na sala”, explica.

A opinião é compartilhada pela professora da rede municipal de ensino em Curitiba e autora do livro Limites e Indisciplina na Educação Infantil, da Editora Alínea, Maritza Rolim Vergès. “Fora dos muros da escola existem muito mais coisas para um jovem ou criança fazer, por isso a escola não pode ser chata”, co­­menta ela, assinalando que a falta de educação por parte dos alunos também é causada pela desestruturação das famílias.

Além do despreparo dos professores, a distância dos pais em relação à vida escolar dos filhos – ou mesmo a participação negativa sobre eles – colabora diretamente para o surgimento da indisciplina. Os professores indicam que as bagunças costumam ser mais frequentes entre estudantes de 6.ª a 8.ª série. Isso porque, segundo Joe Garcia, a relação dos jovens com a autoridade geralmente muda entre os 11 e 14 anos de idade, fase na qual eles tentam romper com o mundo dos adultos para buscar, dentro do próprio grupo de colegas, uma liderança. Para a diretora pedagógica do Colégio Acesso Boqueirão, Adriana Franco, pais que não impõem limites ou mesmo aqueles que são severos demais podem influenciar negativamente os adolescentes nesta faixa etária, por ser esse um momento de auto afirmação.

Torcida organizada

Garcia ensina como os pais devem se comportar para ter controle sobre a vida escolar dos filhos sem sufocá-los nem deixá-los livres demais. Ele compara o desempenho do jovem no colégio com uma partida de futebol em que o time é o estudante e a escola é o campo de jogo. Neste cenário, os pais teriam de ser uma “torcida organizada do bem”. Para Garcia, uma boa torcida não pode ser fanática ao ponto de exigir que o time seja o melhor e ganhe sempre, mas por outro lado, tem de saber apoiar nos momentos difíceis. “É importante também acompanhar de perto o desempenho do time, saber quando é o jogo, o placar, dar uma olhada nos melhores lances e ir ao campo sempre que puder”, completa.

Bagunça evoluiu

O coordenador disciplinar do Co­­légio Bom Jesus, Robson Fernando Oldenburg, lembra que, atualmente, existem nas escolas formas de bagunça que não existiam no passado. “Eles têm jogos portáteis, celulares, mp3, mp4, enfim, uma infinidade de aparelhos eletrônicos que atrapalham a aula tanto quanto a conversa paralela e o bilhetinho”, conta. Segundo Garcia, a tecnologia nesses casos cria uma bagunça codificada e, muitas vezes, silenciosa. Por isso os professores e educadores também precisam estar por dentro dessas novidades para conseguir controlar a bagunça.

Mesmo assim, bolinhas de papel, borrachas no ventilador e aviõezinhos voando pela sala são situações que ocorrem ainda hoje. A pedagoga da Escola Estadual Ângelo Trevisan, Maria Gorete Stival, acredita que alunos, professores e pais devem estar cientes e comunicar sempre que possível quais são os direitos e deveres dos alunos dentro do colégio. “Em alguns casos vale perder aqueles cinco minutos iniciais da aula para organizar a sala e lembrar que certas situações não são toleradas no ambiente escolar”, destaca.