Escândalos políticos recentes e vontade de exercer a cidadania fazem estudantes, que nem mesmo completaram a idade mínima para o voto, se interessarem por política

Publicado em 21/04/2010 | Carlos Coelho

Vinícius Pettri e Álan Teixeira frequentam um grupo de discussão sobre política em que pensam formas de exercer a cidadania

Os recentes escândalos na política brasileira e paranaense – como a série de re­­por­ta­­gens “Diários Secre­tos”, da Ga­­zeta do Povo e da RPC TV–não passaram despercebidos pelos estudantes Vinicius Pettri e Álan Tei­­xeira, ambos de 16 anos, do Colégio Es­­ta­­dual do Paraná (CEP). O assunto ainda permanece na pauta de discussão do grupo de jovens que se reúne para debater política de forma informal, não vinculada ao colégio. E não é o único tema. Para eles, esse universo é fascinante. “Ler e assistir aos noticiários políticos faz parte da minha rotina. Já se tornou algo natural”, diz Pettri.

O interesse em comum surgiu do convívio. Eles se encontraram na sala e demonstraram a afinidade. Eles ainda não votam, assim como os outros integrantes do grupo que participam, formado por alunos do CEP que debatem política e realizam ações de cidadania. Somente este ano irão atingir a idade mínima para isso. Mas já sabem a importância de se ter uma consciência política.

Os adolescentes são movidos por motivações diferentes. “Comecei a gostar do assunto em casa, por discutir abertamente com meus pais. Foi aí que surgiu essa vontade de argumentar”, diz Pettri. “Comigo foi pela escola”, afirma Teixeira. “Meus professores foram os incentivadores. Eles despertaram a minha vontade de entender mais o assunto.”

Os dois podem parecer casos raros. Mas não são. Com os amigos e vizinhos Murilo Jadiel e César Bar­reiros, de 15 anos, não é diferente. Eles também costumam adicionar aos papos sobre videogames e futebol pitadas de política. Cada um estuda em uma escola particular diferente (Dom Bosco e Expoente, respectivamente). “Acho que a influência em casa, de falar do assunto, junto com o que aprendemos nas aulas é que faz gostarmos de política. Acaba com a ideia de que é um assunto chato”, diz Barreiros.

Segundo especialistas, a escola tem papel fundamental nesse processo. “Conseguir implantar essa consciência na sala de aula é uma ferramenta importantíssima para despertar o interesse. As escolas devem discutir e ampliar o seu conteúdo envolvendo política”, diz o cientista político e professor da Universidade Federal de Brasília, Antônio Flávio Testa. Ele defende que as instituições ultrapassem o limite das aulas de sociologia – obrigatórias no ensino médio –, tragam exemplos atuais e abram a discussão sobre o tema.

A posição é semelhante a de outro estudioso, o cientista político paulista Fábio Ribas Macedo – que integrou comitês jovens de partidos políticos. “Hoje temos à nossa disposição uma quantidade enorme de informação. Basta saber levar ao estudante essas possibilidades. As escolas podem guiá-lo, e os pais podem incentivar o debate”, diz. Ele defende o uso de instrumentos do universo jovem, como a internet.

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Dicas

Quer despertar a consciência política em seu filho? Siga as indicações dos especialistas:

– Converse – Aprenda mais sobre o funcionamento da democracia e política e converse com seu filho desde pequeno. Estimule a criança ou o adolescente a opinar sobre assuntos políticos e a participar.

– Noticiários – Incentive-o a acompanhar as notícias políticas e a refletir sobre o que acontece.

– Internet – Apresente sites que estimulem a reflexão política. Nas redes sociais (como Orkut e Twitter), diversas comunidades e perfis são voltados ao tema. A Câmara dos Deputados mantém um site que promove a interação entre a Casa e o público infanto-juvenil. Tem linguagem simplificada e layout divertido, com o objetivo de despertar o interesse pela política em crianças e adolescentes. O endereço é www.plenarinho.gov.br

– Estimule os grupos de discussão – Outra opção é incentivar o aluno a participar de grupos de discussão entre amigos. A escola pode ser um ambiente ideal para isso. Os pais podem cobrar de professores e pedagogos que formem esses conjuntos. Usar o espaço de casa para reunir amigos interessados no assunto também é uma solução. Os alunos entrevistados para a reportagem se reúnem semanalmente, no colégio e, no segundo caso, em casa. Essa pode ser uma boa periodicidade.